Soneto 146
| Soneto 146 |
|---|
Poor soul, the center of my sinful earth, |
| –William Shakespeare |
Soneto 146 é um dos sonetos que compõem os 154 Sonetos de Shakespeare, da série para a Dark Lady. O poeta aqui medita sobre a alma e sua relação com o corpo, na vida e na morte.[1]
Estrutura
Como os outros poemas dessa série, ele apresenta a estrutura de soneto inglês, com versos decassílabos com ritmo de pentâmetro iâmbico.[nota 1]
Sinopse
Este é um soneto em que o poeta utiliza a espiritualidade e a religião,[2], em que conversa com a alma, reclamando de sua condição.[3][4]
Traduções
Tradução de Élvio Funk
Uma tradução tendendo à literal, em forma de quatorzain, sem cuidados com ritmo, métrica e rima.
Minha pobre alma, centro de meu corpo pecador,
que alimentas as forças rebeldes com que te revestes,
por que definhas por dentro e sofres penúria,
pintando tuas paredes externas com tinta tão cara?
Por que fazes tanta despesa para um aluguel tão curto,
e jogas fora dinheiro ao gastá-lo numa mansão decadente?
Não irão os vermes, herdeiros de teus excessos,
devorar teu protegido? Não é esse o fim do teu corpo?
Portanto, alma, alimenta-te com a fome de teu corpo pois,
ao deixá-lo definhar, teu tesouro incrementas;
compra bens celestes e vende o lixo aqui da terra;
alimenta-te por dentro e deixa de enriquecer por fora.
Assim, às custas da morte, que do homem vive, tu viverás
e tu, morte, uma vez morta, não mais existirás.[2]
Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta
Tembém uma tradução tendendo à literal, em forma de quatorzain, sem se ater a ritmo, métrica nem rima.
Pobre alma, centro do meu mundo de pecado,
Alimentando as forças rebeldes que alinhas,
Por que hás definhado de miséria e fome,
Pintando teus muros com suntuosas cores?
Por que gastas tanto, pagando tão pouco,
Com a mansão onde vives em desagrado?
Os vermes, herdeiros desse excesso,
Comerão o que gastas? Este é o fim de teu corpo?
Então, alma, vive com o que desperdiça o teu servo,
E deixa a gula consumir os teus bens;
Compra o céu vendendo as horas de fastio;
Alimenta o teu estômago e despende toda a tua riqueza.
Assim, sustentas a morte que mantém os homens,
E, uma vez morta, a morte estará extinta.[5]
Tradução de Milton Lins
A forma de soneto inglês foi preservada, seguindo o mesmo esquema rímico ABAB CDCD EFEF GG, com versos decassílabos, porém não seguindo o ritmo de pentâmetro iâmbico em todos os versos.
Pobre alma, alvo e razão que me consome,
Louca pelo poder do dirigente,
Por que se desgastar, sofrer a fome,
POintando o muro externo descontente?
Muito gasto, e aluguel de baixo preço,
A mansão quanto custa desbotada?
Existge herdeiro afim para esse excesso,
Tua renda engoliu? Ficaste em nada?
Então vives igual ao que me resta,
Deixa que gasto tal na féria fica,
Compra termo divino, e o tempo apreste,
Para se alimentar, e não ser rica.
Come a morte de vez, que é canibal,
Pois se a morte morrer, és imortal.[6]
Tradução de Paulo Camelo
A tradução segue, em forma, métrica, ritmo e rima, o soneto original, acrescentando-lhe o ritmo holístico.
Da minha terra pecadora centro,
escrava dos poderes, pobre alma,
essa escassez por que definhas dentro
ostentação tamanha não te acalma?
E por que tanto custo, em tempo escasso,
em tua vida gastas, decadente?
Haverá vermes nesse teu espaço
a devorar-te? É este o fim, somente?
Então, vive da perda desse escravo
e deixa o teu tesouro definhar.
Divinos termos compra, em teu agravo,
e te alimenta, antes de os gastar.
Supres da morte o alimento, assim,
que, uma vez morta, já não há mais fim.[3]
Tradução de José Arantes Júnior
O tradutor, a exemplos dos outros sonetos por ele traduzidos, acrescentou um título. O ritmo e a métrica por ele usados fugiram ao utilizado pelo poeta autor, mantendo métrica e ritmo variando entre 10, 11 e 12 sílabas.[nota 2]
O pobre homem rico
Pobre alma, centro da área do pecado
Que nutre o poder de forças raivosas,
Por que, em teu sofrimento exagerado,
Pintas-te com aparência tão suntuosa?
Por que tão caro por tão pouco haver
A desvanecer em tua mansão malfadada?
Vermes, herdeiros do que te apetecer
Comerão tudo até tua forma degradada;
Alma, vive dos danos do teu serviçal
E deixa a fome agravar o teu armazém,
Compra o divino e vende horas do mal
Com alimento mas sem ser rico no bem;
Leva para a morte a comida perecendo
E um morto já não está mais morrendo.[7]
Notas
- ↑ Há 3 exceções na série:
- Soneto 99 - Não é estruturalmente um soneto, pois tem 15 versos, distribuídos em 1 quinteto, 2 quartetos e 1 dístico;
- Soneto 126 - Também não é um soneto, apresentando apenas 12 versos, distribuídos em 6 dísticos;
- Soneto 145 - Distingue-se dos outros, pois tem versos octossílabos, com ritmo de tetrâmetro iâmbico.
- ↑ A rigor, a meta do tradutor, como o foi nas outras traduções do poeta, é a forma plástica, utilizando 36 caracteres por verso, que dão um formato simétrico quando usada fonte monoespaçada.
Referências
- 1 2 «Sonnet 146». Shakespeare's Sonnets. Folger Shakespeare Library (em inglês). Consultado em 8 de março de 2026
- 1 2 Elvio Funk (29 de janeiro de 2021). «Soneto 146». Consultado em 8 de março de 2026
- 1 2 «Soneto 146 de William Shakespeare». Consultado em 8 de março de 2026
- ↑ «Versos destilam-te a verdade (Os sonetos, de Shakespeare)». Trabalhar cansa (livraria e sebo). Consultado em 8 de março de 2026
- ↑ «Soneto 146». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 8 de março de 2026
- ↑ SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5
- ↑ José Arantes Júnior. «Sonetos completos de William Shakespeare» (PDF). Consultado em 8 de março de 2026