Soneto 114
| Soneto 114 |
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Or whether doth my mind, being crowned with you, |
| –William Shakespeare |
Soneto 114 é um dos 154 sonetos de William Shakespeare. Faz parte da série ao Belo Rapaz. O poema é dirigido a um jovem conhecido como o "Belo Jovem" e retoma a narrativa do soneto anterior. Essa pessoa nunca foi identificada na vida real, nem a verdadeira natureza da relação do poeta com ela foi desvendada. Isso levou muitos leitores e estudiosos a especularem sobre a sexualidade de Shakespeare ou mesmo se o poeta é o narrador nesses versos.
Estrutura
Como quase todos os poemas dessa série, ele é um soneto inglês,[nota 1] composto por 3 quartetos e 1 dístico,[nota 2] com versos decassílabos em pentâmetro iâmbico.[nota 3]
Sinopse
Dando continuidade ao Soneto 113, o poeta debate se as belas imagens da pessoa amada são verdadeiras ou ilusões da mente, optando pela segunda opção.[1]
Traduções
A tradução de Thereza Christina Rocque da Motta, utilizando a forma de um quatorzain monostrófico, não se ateve a métrica, ritmo ou rima, perseguindo a literalidade.
Deve a minha mente, coroada de ti,
Sorver a praga do rei, este elogio?
Ou devo dizer que meu olho não mente,
E que teu amor ensinou-lhe esta alquimia,
De transformar monstros e coisas indigestas
Em querubins semelhantes à tua doce imagem,
Transmutando todo o mal em perfeito bem
Tão rápido quanto tudo dele se aproxima?
Ó, eis o primeiro, o elogio a meu ver,
E minha grande mente majestosamente o sorve.
Meus olhos sabem bem o que a língua prova,
E para o palato prepara o copo.
Se for veneno, será um pecado menor
Do que meu amor por ele e, assim, principio.[2]
A tradução de Paulo Camelo obedeceu à forma original, de soneto inglês, com 3 quartetos e 1 dístico, com versos decassílabos em pentâmetro iâmbico, mantendo um ritmo holístico.
Será que minha mente, a ti moldada,
aceita o mal, só vê bajulação?
Será que o olho, vendo tudo e nada,
engana-se no amor, que, sem noção,
vê monstros, vê fantasmas, formas más
em anjos como tu, que és tão doce,
ou faz mistura em planos desiguais
tão rápido a pensar que um raio fosse?
Eu já não sei. Só há bajulação
no meu olhar, e a mente, majestosa,
exalta o que ela bebe e sabe o quão
gostoso é o paladar que a taça dosa.
Estando envenenado, eu peco pouco.
O amor que o olho vê começa louco.[3]
O tradutor Milton Lins manteve a forma de soneto inglês com esquema rímico ABAB CDCD EFEF GG, mas com métrica em dodecassílabo e ritmo alexandrino, usando o hexâmetro iâmbico[nota 4] em quase todos os versos.
Ou quando o meu pensar tornar-se coroado,
Beber praga de rei será galanteria,
Se meu olhar disser, dirá quanto acertado;
E, mais que seu amor, terá sua alquimia.
Com monstros construir a coisa bem maior,
Como os tais querubins, que o próprio senso atina,
Criando, em cada qual, um bem muito melhor,
Veloz raio de luz que um ídolo ilumina?
Lisonja para quem agiu na minha vez,
E minha intuição bebeu com majestade:
Meu olhar sabe bem sair da lucidez,
E o céu da sua boca, a taça assim invade:
Se envenenado for, não mais terá pecado.
O amor no meu olhar tem tudo começado.[4]
A tradução de José Arantes Júnior obedece à estrutura de soneto inglês, com o esquema rímico original ABAB CDCD EFEF GG, mas não obedece a métrica ou ritmo, visando a uma forma plástica, com 26 caracteres por verso, que lhe dão um formato geométrico quando usada fonte monoespaçada. Acrescentou-lhe um título.
Os monstros e os querubins
Se minha mente fosse coroada contigo
Sorveríamos a bajulação da soberania?
Se meu olho visse o verdadeiro signo
E o teu amor ensinasse esta alquimia,
Transmudando monstros e coisas ruins
Em querubins parecidos com o teu ser,
Mudando cada mal numa perfeição-afim
Tão cedo quanto pudesses te perceber?
Esta bajulação é a primeira da visão
Que minha mente intrigada deve beber,
Meu olhar conhece tua sensibilização
E prepara um cálice para te oferecer;
E se for veneno terá o menor roteiro,
O meu olho gosta e serve-se primeiro.[5]
Notas
- ↑ Duas composições suas não são estruturalmente consideradas sonetos. O Soneto 99 apresenta 15 versos, distribuídos em 1 quinteto, 2 quartetos e um dístico, enquanto o Soneto 126 compõe-se de apenas 12 versos, apresentados em 6 dísticos.
- ↑ Apesar de estruturalmente ser um soneto inglês, ele é apresentado como uma monóstrofe, podendo aí ser comparado ou denominado quatorzain.
- ↑ O Soneto 145 foi composto em versos octossílabos, em tetrâmetro iâmbico.
- ↑ Os versos 6 e 11, em seu primeiro hemistíquio, são construídos por dois anapestos.
Referências
- 1 2 «Shakespeare's Sonnets». Sonnet 114. Folger Shakespeare Library (em inglês). Consultado em 16 de abril de 2026
- ↑ «Soneto 114». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 16 de abril de 2026
- ↑ «Soneto 114 de William Shakespeare». Recanto das Letras. Consultado em 16 de abril de 2026
- ↑ SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5
- ↑ «Sonetos completos de William Shakespeare» (PDF). Consultado em 16 de abril de 2026