Soneto 113

Soneto 113

Since I left you mine eye is in my mind,
And that which governs me to go about
Doth part his function and is partly blind,
Seems seeing, but effectually is out;
For it no form delivers to the heart
Of bird, of flower, or shape, which it doth latch:
Of his quick object hath the mind no part,
Nor his own vision holds what it doth catch;
For if it see the rud’st or gentlest sight,
The most sweet favour or deformed’st creature,
The mountain or the sea, the day or night,
The crow or dove, it shapes them to your feature:
Incapable of more, replete with you,
My most true mind thus maketh mine untrue.
[1]

–William Shakespeare

Soneto 113 é um dos 154 sonetos escritos pelo dramaturgo e poeta inglês William Shakespeare. Faz parte da sequência "Belo Jovem", na qual o poeta expressa seu amor por um jovem.

Análise

Como os demais sonetos de William Shakespeare, este foi todo construído no ritmo de pentâmetro iâmbico, no formato de soneto inglês, com 3 quartetos e um dístico, e rima em ABAB CDCD EFEF GG.[2]

Sinopse

Neste primeiro de dois sonetos interligados, o poeta confessa que tudo o que vê se transforma numa imagem da amada.[1] Desde que deixou sua amada, o poeta não pensa em mais nada. Seus olhos não veem mais o mundo exterior, pássaros, flores e outras formas não entram em sua mente, só a imagem da pessoa amada. Tudo o que ele vê, feio ou belo, se transforma na pessoa amada.

Mais por um senso de dever do que por uma expressão significativa de emoção, o poeta afirma ver a pessoa amada (o belo jovem) em tudo enquanto está longe dele. A dicotomia olho-mente apresentada no primeiro verso remete a sonetos anteriores nos quais os pensamentos sobre o jovem confortavam o poeta durante a separação.[3]

Traduções

Desde que te deixei, meus olhos se ensimesmaram,
E quem me leva a caminhar livre
Em parte, vê e, em parte, está cego,
Pensando ver, mas, na verdade, não vê;
Pois não indica nenhuma forma ao coração
De pássaro, flor, ou silhueta, que consiga divisar;
Desses fugidios objetos a mente não se ocupa,
Nem sua vista se detém sobre o que possa vislumbrar;
Pois diante da mais branda ou mais rude visão,
A mais formosa ou deformada criatura,
A montanha ou o mar, o dia ou a noite,
Corvo ou pomba, empresta a eles tua forma.
Incapaz de ver outra coisa, tão cheia de ti,
Minha mente certa torna meus olhos incertos.

O rude e o meigo

Em tua ausência meu olhar é embotado
Porquanto o que dirige o meu sentido
Tem um tino atuante e outro ofuscado
Parece enxergar mas está enceguecido;

Assim nenhuma forma chega ao coração
Da ave, da flor, ou do tom do trinco,
Já que, na mente, não se tem fixação,
Nem a própria visão se vê com afinco;

Ver o rude, ou o meigo na fisionomia,
O doce-suave, ou o deformado-flagelo,
A serra, ou o mar, a noite, ou o dia,
O corvo, ou a pomba, é ver teus elos;

Incapaz de sair deste lapso ardiloso
O meu eu verdadeiro se fez mentiroso.

Tradução de Paulo Camelo[nota 3]

Assim que eu te deixei, o meu olhar,
que está na minha mente e que me guia,
é quase cego, já não quer olhar,
parece ver, mas já não tem valia.

Ao coração não mostra o que apreende,
ou flor ou pássaro, ou qualquer forma,
a mente se abstrai, já não entende,
o que a visão retém não se conforma.

E, se a visão vê rude ou vê suave,
ou doce, o que ela vê sai deformado;
o dia é noite, o mar tem forma grave,
o corvo é pomba... és tu, teu corpo amado.

Assim, pleno de ti, sou incapaz
de ver como verdade tudo o mais.

Tradução de Ivo Barroso[nota 4]

Ao deixar-te, na mente te carrego
E os olhos, que me indicam aonde vão,
Fazem-no em parte, pois em parte, cego,
Pareço ver, mas na verdade não.

Pois forma alguma ao coração me chega
De ave ou de flor ou de uma imagem rala
Que passando ligeira a mente pega
Mas a visão fracassa em agarrá-la.

Pois vendo o que há de rude ou de harmonia,
A mais disforme, a mais bela criatura
Seja montanha ou mar, ou noite ou dia
Corvo ou pomba, me traz tua figura.

Incapaz de algo mais, de ti nutrido,
Minha mente fiel me torna infido.

Notas

  1. ↑ A tradutora não segue o ritmo, a métrica nem o esquema de rimas do autor, preferindo fazer uma tradução livre.[4]
  2. ↑ Este tradutor seguiu o esquema rímico do autor no soneto: ABAB CDCD EFEF GG, como um soneto inglês, acrescentando-lhe um título. Mas não o seguiu no ritmo nem na métrica, preferindo dar-lhe um aspecto plástico, com 36 caracteres em cada verso, que lhe mostram a forma, quando utilizada uma fonte monoespaçada.[5]
  3. ↑ O tradutor procurou seguir o ritmo de pentâmetro iâmbico usado pelo poeta inglês, em ritmo holístico, mantendo também o esquema rímico ali utillizado.[6]
  4. ↑ O tradutor usou a forma de soneto inglês, com seu esquema rímico característico, mas o apresentou em monóstrofe. Usou versos decassílabos, não se mantendo, no entanto, no ritmo de pentâmetro iâmbico, mostrando em heróicos / sáficos.[7]

Referências

  1. 1 2 Folger Shakespeare Library. «Sonnet 113». Shakespeare's Sonnets (em inglês). Consultado em 15 de abril de 2026. Cópia arquivada em 6 de fevereiro de 2026
  2. ↑ CAMPOS, Geir. Pequeno Dicionário de Arte Poética- Rio de Janeiro:Edições de Ouro,1960.
  3. ↑ «Sonnet 113». Cliff Notes (em inglês). Consultado em 15 de abril de 2026
  4. ↑ «Soneto 113». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 15 de abril de 2026. Cópia arquivada em 13 de maio de 2025
  5. ↑ Shakespeare, William - Sonetos completos de William Shakespeare. Tradução de José Arantes Júnior. - São Paulo: Ed. do Autor, 2007.
  6. ↑ «Soneto 113 de William Shakespeare». Recanto das Letras. Consultado em 15 de abril de 2026
  7. ↑ Ivo Barroso. «Soneto 113» (PDF). 50 Sonetos William Shakespeare. Consultado em 15 de abril de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 15 de junho de 2022