Soneto 149
| Soneto 149 |
|---|
Canst thou, O cruel, say I love thee not |
| –William Shakespeare |
Soneto 149 é um soneto da série de 154 sonetos de Shakespeare. Faz parte da série de sonetos à Dama Negra (do Soneto 127 ao Soneto 154).
Estrutura
É essencialmente um soneto inglês,[3] com 3 quartetos e um dístico, com esquema rímico característico dessa forma de soneto: ABAB CDCD EFEF GG. Foi construído com versos decassílabos, com ritmo de pentâmetro iâmbico.
Sinopse
Neste soneto, o poeta argumenta que provou seu amor pela dama ao se voltar contra si mesmo, enquanto ela se volta contra ele.[1]
A ideia da amante como uma mulher cruel que despreza os afetos do seu amado já apareceu no segmento da Dama Negra em três ocasiões anteriores. Essa ideia era comum na Inglaterra elisabetana.[4]
Traduções
Thereza Christina Rocque da Motta não se ateve aos cânones do soneto, mesmo o soneto inglês, quanto a métrica, ritmo e rima, fazendo uma tradução próxima à literal. Manteve, no entanto, os 14 versos, em monóstrofe, podendo ser considerado, em forma, um quatorzain.
Como podes, ó cruel, dizer que eu não te ame,
Quando, contra minha vontade, a ti me entrego?
Não penso em ti, quando esqueço
De mim, por tua causa, brutal tirana?
A quem odeias, que chamo de amiga?
A quem rejeitas, que adulo e acaricio?
Não, se me desprezas, não me vingo
De mim mesmo com pesar profundo?
Que mérito me diz respeito,
Que, por orgulho, despreze teu serviço,
Quando o melhor de mim venera teus defeitos,
Sob o jugo e mando de teus olhos?
Mas, amor, me odeia, pois agora sei o que queres;
Amar a todos que te veem, e que eu te seja cego.[5]
Ivo Barroso, em sua tradução, usou a forma de soneto inglês, com seu esquema rímico e em versos decassílabos, embora com ritmo diferente do do original.
Podes, ó cruel, dizer que eu não te apreço,
Se estou, por ti, contra mim mesmo a opor?
Não é em ti que penso quando esqueço
De mim mesmo, ó tirano, em teu favor?
A quem, te odiando, eu chamaria amigo?
Ou louvaria se que te acaso vexa?
Ou melhor, se me feres, só consigo
Vingar de mim te dando a minha queixa.
Quais méritos em mim ou que respeitos
Podem a não servir-te me levar,
Quando em adoração de teus defeitos
Sou comandado à força de um olhar?
Mas, odeia-me, amor; não te renego:
Amas quem pode ver-te, e eu sou cego.[6]
O médico escritor José Arantes Júnior preferiu, em sua tradução, seguir padrões de simetria, ao utilizar fonte monoespaçada nos 36 caracteres por verso, mas manteve a forma de soneto inglês e seu esquema rímico. Acrescentou-lhe um título.
O respeito e o menosprezo
[7]
Poderias dizer que não te tenho amor
Se contra mim mesmo partilho contigo?
Se esqueço de mim de modo censurador
Não é só por causa de estares comigo?
Eu chamaria a quem te odeia de amigo?
A quem te visse com ira, eu adularia?
Se caísses, não te negaria um abrigo
Desagravando em mim mesmo a anomalia?
Que mérito traz meu próprio respeito
Se te sirvo apesar de me menosprezar,
Se meu imo maior adora teus defeitos
Comandado pelas feições do teu olhar?
Amor e ódio são nuanças de tua mente
E eu sou apenas um cego inconsciente.
Paulo Camelo seguiu o estilo original, em forma, métrica, ritmo e rima, fazendo-o com ritmo holístico.
Cruel! Podes dizer que eu não te amo,
eu que por ti me volto contra mim?
Se até de mim esqueço, e não reclamo,
em tua causa, tão tirano assim?
Se alguém te odeia, acaso é meu amigo?
A quem agrado, se não é teu gosto?
E, se tu me desprezas, dou abrigo
a tal vingança, a lamentar meu posto?
E qual será meu mérito, afinal,
se te desprezo quando a mim tu vens,
quando o melhor de mim só vê teu mal,
se nos teus olhos vejo o amor que tens?
Odeia-me, pois vejo a tua mente.
Aos outros amas; cego eu sou, somente.[8]
Notas
Referências
- 1 2 Folger Shakespeare Library. «Sonnet 149». Shakespeare's Sonnets (em inglês). Consultado em 9 de março de 2026
- ↑ «Sonnet 149: Canst Thou, O Cruel! Say I Love Thee Not». No Sweet Shakespeare (em inglês). Consultado em 9 de março de 2026
- ↑ CAMPOS, Geir. Pequeno Dicionário de Arte Poética. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1960.
- ↑ «Sonnet 149: Canst Thou, O Cruel, Say I Love Thee Not». SonnetCast (em inglês). Consultado em 9 de março de 2026
- ↑ «Soneto 149». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 9 de março de 2026
- ↑ Ivo Barroso. «50 Sonetos William Shakespeare» (PDF). Estrada dos Livros. Consultado em 9 de março de 2026
- ↑ José Arantes Júnior. «Sonetos completos de William Shakespeare» (PDF). Consultado em 9 de março de 2026
- ↑ «Soneto 149 de William Shakespeare». Consultado em 9 de março de 2026